Hoje comemoramos o dia mundial da criança, dia 1 de junho, que por si só é uma data que homenageia os mais importantes do mundo, as nossas crianças. Mas apelamos a outra data bem recente, 28 de maio, dia mundial do brincar.
Crianças, que hoje são cada vez em menos número no nosso país bem como na grande parte dos países e continentes que partilham o nosso modo de vida ocidental.
Umas das maiores diferenças que a nossa criança e a criança que são os nossos filhos tem é a liberdade. É muito estranho ser essa palavra, ainda para mais quando somos a primeira geração que cresce depois do 25 de abril.
Nós pudemos crescer num mundo livre e tivemos a oportunidade de desfrutar de tudo o que a rua, os amigos, os jardins, os jogos de escondida, as casas nas árvores, os mergulhos no rio e tantas outras coisas tinham para vivermos e brincarmos como crianças.
E os nossos filhos, também podem viver e brincar como crianças?
Segundo o professor Carlos Neto, numa recente entrevista ao jornal I, “…os níveis de atividade física são muito baixos: cerca de 70 a 80% das crianças não são ativas o suficiente para poderem ter uma vida saudável. Para o professor, a urgência do problema é tal que deveria ser decretado o estado de emergência para se brincar na infância.
A Academia americana de Pediatria, a partir de 2018, passou a aconselhar os médicos norte americanos a prescreverem tempo de recreio para as crianças. O psiquiatra norte-americano Suart Brow, do National Institute for Play, refere que “brincar é um assunto muito sério” e que influencia todos os aspetos de desenvolvimento de um ser humano, é perigoso não brincar.
“O oposto de brincar não é trabalhar, é depressão.” Brian Sutton Smith, neozelandês estudioso do Brincar"
Será que as nossas crianças estão livres dessa enorme pandemia do Não Brincar?
Com base em vários estudos realizados, e juntando a minha análise de mais 20 anos que levo a trabalhar com crianças dos 3 aos 12 anos, infelizmente a resposta é Não, as nossas crianças não estão livres da pandemia do Não Brincar.
É importante referir que o brincar deve ser livre e espontâneo, pode e deve envolver riscos, tal com defende Ellen Sandseter, educadora infantil na Noruega, país que tem muito menos horas solares do que Portugal e temperaturas bem mais baixas. Reconhecendo o risco que o brincar livre envolve, sabemos que os benefícios serão maiores, pois través a criança conseguirá adequar mais facilmente os seus comportamentos aos diferentes riscos que a vida lhe trará.
Mariana Brussoni especialista em desenvolvimento humano, questiona “Qual é o papel do risco na vida das crianças?” Enfrentar o risco para além de prevenir lesões promove a aprendizagem de como funciona o mundo.
Portugal está preparado para vencer a pandemia do Não Brincar?
Na escola onde as crianças passam a grande parte do seu tempo, os professores são uns verdadeiros heróis e serão capazes de reinventar novas formas de aprender, quem o diz é o prof. Carlos Neto. Para tal é necessário que as escolas retirem as crianças do seu ambiente de sala de aula para o exterior. O aproveitamento dos porfessores que temos, juntamente com uma abordagem das aprendizagens mais focada na experiência vivida pela criança, através das aulas ao ar livre com multiplas situações, pode ajudar a vencer esta pandemia do Não Brincar.
Na luta contra pandemia do Não Brincar, a família tem o papel de imunidade de grupo, basta alterar comportamento. Para Stuart Brown do National Institute for Play, os pais têm que brincar para que as crianças sintam que também têm permissão e que é uma acção presente na vida da família. Os filhos tem tendência em imitar o comportamento dos pais, daí ser tão importante também os adultos brincarem com as crianças, e permitirem que estas possam explorar o mundo através do brincar, essa é a grande transformação que temos que introduzir nos nossos hábitos de vida.
Não é só o exercício físico e a nutrição que nos fazem ser mais saudáveis, a socialização em família, a criação de vínculos e memórias em conjunto é fundamental para que exista um sentimento de pertença, e para as crianças isso é fundamental. Na APDF – Associação Portuguesa de Desporto em Família, essa é a nossa missão.
Convidamos as famílias a participarem em atividades ao ar livre, caminhadas, treinos, encontros, passeios, sempre com a finalidade de estimular a vida ao ar livre e que permita que as crianças sintam a natureza como parte integrante da sua vida familiar.
Toda esta realidade que vivemos muito recentemente e que ainda estamos a viver, pode possibilitar um novo recomeço que permita às crianças de hoje voltarem a ser as crianças que fomos no passado.